Ele antes de sair de casa se olha mais uma vez no espelho e pensa: "Quando tudo vai bem me sinto culpado". E assim sai para mais uma noite de encontros ou desencontros, porque ele aposta no acaso.
Helena está no balcão do bar conversando com algumas pessoas. No balcão o som de fundo é o sussurro de conversas das mesas a volta.
Ricardo entra no bar e se encaminha direto para o balcão, pede seu habitual uisque com coca-cola. Enquanto espera, observa aquelas pessoas que não param de falar. A sua atenção é despertada por uma mulher que ao falar gesticula, como se o corpo dela falasse também. Em frações de segundos seus olhares se cruzam. Nesse momento Ricardo pressente que algo irá acontecer. Ele bebe o seu uisque com grande prazer e tem a sensação que aquela bebida é como uma poção mágica, a qual o deixa num estado de total relaxamento e assim ele percebe os mínimos detalhes do ambiente e pessoas a sua volta.
A madrugada chega e as pessoas se retiram mas Helena continua a conversar só que agora com o barman. Ricardo já está no seu terceiro uisque, que para ele é a dose certa de parar. Ele pede a conta, nesse momento Helena o olha e pergunta se ele poderia lhe dar carona. Ricardo sente-se desconfortável com a situação, no fundo esperava ser ele a provocá-la. Ele diz sim, os dois saem do bar. Helena continua falante como se já o conhecesse, ele estranha esse comportamento e fica desconfiado com aquela intimidade. Helena mesmo embriagada com as suas próprias palavras se impressiona com a mudez daquele homem que lhe parece extremamente delicado. Pela sonoridade das poucas palavras que ele diz, parece uma pessoa afetuosa.
Ao chegarem em frente ao prédio de Helena, ela o convida para um café. Mais uma vez Ricardo sente-se desconfortável, mas a sua curiosidade é maior e ele aceita.
Enquanto Helena prepara o café Ricardo repara em todos os detalhes da casa a procura de informações para entender o mundo daquela mulher. Na verdade ele tem extrema paixão pelo mundo das mulheres. O seu fascínio por tudo que diz respeito ao feminino é tão grande que chega a deixá-lo confuso. As vezes imagina um mundo onde só teriam mulheres e essa imagem sempre lhe deu grande prazer. Quando está apaixonado fica inebriado pela presença daquele ser que lhe é tão caro. A intensidade da sua emoção faz com que ele deseje em alguns momentos ser como ela. Transformar-se em uma mulher e fazer parte desse mundo que ele tanto ama. A sua busca pela mulher ideal é quase doentia. Ele imagina uma mulher tão perfeita como ele se imagina.
Helena serve o café e sente-se calma perto de Ricardo. Agora ela fica pensativa e calada. Diante desse momento de silêncio, Ricardo começa a falar um pouco sobre si. Enquanto Helena o ouvia sentia uma enorme vontade de abraçá-lo, ele parecia uma pessoas frágil. Helena encontrava-se num momento de vida muito confuso e de muitas mudanças. Ela sempre foi uma pessoa decidida, acostumada a reprimir suas emoções para dominar as situações que tinha que enfrentar sozinha. Agora era como se tivesse perdido as rédeas da sua vida. Ele despertava nela a força que sempre direcionou a sua vida para poder protege-lo. Ela imaginava que desse encontro poderia surgir uma amizade sem igual. Era como se tivesse encontrado uma alma feminina num homem. De repente Ricardo para de falar e os dois se abraçam.
