segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vertentes

Vertentes
As palavras esperam o sono e a música do sangue sobre as pedras corre a primeira treva surge o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande o teu centro desenvolve-se como um ouvido a noite cresce uma estrela vive uma respiração na sombra o calor das árvores 

Há um olhar que entra pelas paredes da terra sem lâmpadas cresce esta luz de sombra começo a entender o silêncio sem tempo a torre extática que se alarga
A plenitude animal é o interior de uma boca um grande orvalho puro como um olhar
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio sou o teu lábio e a coxa da tua coxa sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo sou a sombra que conhece a luz que a submerge
A luz que sobe entre as gargantas agrestes deste cair na treva abre as vertentes onde a água cai sem tempo

António Ramos Rosa, in “Matéria de Amor"