E continuam a mover-se a onda, o canto e o conto, e a morte!
O velho oceano descobriu, rindo às gargalhadas, os seus descobridores. Susteve sobre o seu movimento maoris inconstantes, fijianos que se devoravam, samoanos comedores de nenúfares, loucos de Rapa Nui que construíam estátuas, inocentes do Taiti, astutos das ilhas, e depois biscainhos, portugueses, estremenhos com espadas, castelhanos com cruzes, ingleses com taleigos, andaluzes com viola, holandeses errantes. E daí?
O mar descobriu-os sem sequer os olhar, com o seu contacto frio derrubou-os e anotou-os de passagem no seu livro de água.
Continuou o oceano com o seu modo de sacudir e o seu sal, com o abismo. Nunca se encheu de mortos. Procriou na grande abundância do silêncio. Ali a semente não se enterra nem a casca se corrompe: a água é esperma e ovário, revolução cristalina.
Pablo Neruda
